quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Os filhos são obrigados a amar a mãe?

Partilho convosco alguns excertos do artigo da Laurinda Alves publicado ontem no Observador e que dá que pensar, essencialmente nesta altura.

"Uma mãe que não se ama ou até se detesta ainda é um tabu e a ideia, em si mesma, quase intolerável, especialmente em alturas como esta que atravessamos, em que a imagem da mãe é um ícone sagrado e uma imagem intocável.

O tema dói sempre, mas mais ainda no Natal porque reabre feridas, deixa as fracturas mais expostas, e vêm-se melhor as cicatrizes e as marcas que ficam gravadas para sempre. Custa falar das más mães, mas é um tema urgente.

Poucos são os que se atrevem a dizer “eu não gosto da minha mãe” porque são palavras duras que devassam sentimentos íntimos e extraordinariamente dolorosos. E, no entanto, muitos sofrem diariamente a erosão de serem filhos de mães difíceis, egoístas, narcísicas, indiferentes, castigadoras, patologicamente instáveis, adictas ou simplesmente incapazes de amar, encorajar, acolher, valorizar e ajudar os seus filhos a crescer. Em vez de se sentirem cada vez mais fortes, os filhos destas mães sentem-se cada dia mais sozinhos e abandonados. Mesmo quando vivem na mesma casa e partilham a mesma mesa. E até mesmo quando as mães lhes compram presentes, os vestem impecavelmente bem e dizem aos outros que adoram os seus filhos. Na verdade quem é muito amado, sente-se muito amado. Não precisa de anúncios, letreiros ou editais.

A ambivalência de sentimentos relativamente a quem nos deu a vida (e segundo o Mito de Medeia, também nos pode tirá-la) faz com que se perpetuem relações difíceis, muitas vezes marcadas pela hostilidade. Na nossa sociedade amar uma mãe nunca é uma pergunta, é sempre um imperativo moral e, por isso, estes filhos não se atrevem a falar sobre a qualidade da sua relação. Muito poucos chegam a assumir a tremenda dificuldade com que vivem. Disfarçam. E sofrem.

Talvez ajude pensar que em certos casos melhor é mesmo impossível. Liberta os filhos do pesado fardo da culpabilidade (têm sempre sentimentos de culpa, mesmo sabendo que a culpa não é deles) e permite-lhes perceber que por mais dura que seja esta realidade, há filhos que têm o direito de não amar as suas mães."
artigo completo aqui

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