quarta-feira, 27 de março de 2013

Fornicar ou fazer amor?

Fornicar é uma ordinarice. É o sexo pelo sexo, o corpo pelo corpo, o suor pelo suor. Sem a magia da comunhão, sem a intensidade emocional da emoção do fundo, da emoção que vem das veias como o grito vem da garganta. Fornicar sabe a carne na carne, a reles pénis em reles vagina. Fornicar é dois corpos que se esfregam. Uma masturbação assistida. Uma partilha insistida.

A mulher que vou levar para a cama – sim, tu – não me vai fornicar. Não vai porque eu não deixo. Lamento. Não deixo. Se fores a mulher que eu vou levar para a cama tens de ser mais do que fornicadora, mais do que especialista em sexo, mais do que a melhor sexoralista do mundo, mais do que a melhor orgasmista do mundo. Se fores a mulher que eu vou levar para a cama vais perceber que fornicar não existe. Fornicar-me não existe. Fornicar, quando fornicar é tudo o que dois corpos que se embraçam fazem, sabe a nada. Continuas sem entender nada?

Mais uma vez: se me queres fornicar, se só me queres fornicar e nada mais do que fornicar-me, quando me levares para cama é certo que não me vais levar para a cama. Fornicar é um amor coxo. Um amor manco. E das duas pernas - ou das duas bolas. Fornicar nem sequer é amor, nem sequer é amável. Fornicar consiste em trocar a mão no sexo pelo sexo que está mais à mão. Desculpa – mas não.

Fazer amor é uma seca. Um tédio. Uma canseira psicológica. É sempre mais do mesmo. Um abraço aqui, um beijo ali, um “amo-te” aqui, um “também te amo” ali. Há carinho, há ternura, há partilha, há cumplicidade. Mas é poucochinho. Coisa pouca quando se pretende o êxtase. Fazer amor é uma seca. Fazer amor, quando tudo que se faz na cama entre dois corpos é fazer amor, é um aborrecimento, uma imensa sensaboria. Se aquilo que me queres fazer, quando me levares para a cama, é amor, daquele que se faz de só carinho, de só ternura, de só cumplicidade de afectos, então garanto-te que não me vais levar para a cama. Não vais. Lamento. Não vais. Fazer amor, para mim, na minha cama e em todas as camas que são minhas (e são minhas, naquele exacto instante que tem de durar para sempre, todas as camas em que eu me deito com outros corpos que se deitam), não existe. Não existe só candura, não existe só o “amo-te tanto” e o “és tão lindo e tão amoroso e tão querido”. Muito menos existe o “és tão fofinho”. Fofinho mas é uma merda. Fofinho é tão pequeninho que até me apetece ir-te ao focinho. Fofinho mas é uma merda. Eu não sou fofinho, não quero ser fofinho e tenho asco de quem é fofinho. Fofinho é um nojinho. Comigo não vais fazer amor. Podes tirar daí o cavalinho da chuva. E podes, já agora, montá-lo também – que daqui não levas nada. Tchauzinho.

Fazer amor é uma treta. Uma engonhice, uma trambiquisse. Fazer amor é uma treta e uma engonhice e uma trambiquisse como fornicar é uma treta, uma engonhice e uma trambiquisse. Fazer amor é uma seca como fornicar é uma seca. Manda fornicar o fazer amor. E manda fornicar tudo o que seja só fornicar. Fornicar por fornicar é simplesmente ficar. E ficar – és tão parvo que ainda nem tinhas olhado bem para a palavra – é não sair do sítio. Estar ali, quieto, a sentir mais do mesmo. E menos do mesmo. À medida que vais fornicando vais-te fornicando. E à medida em que vais fazendo amor vais desfazendo amor. Desfazendo-te – e a quem amas – em amor. Todo o amor se dissolve em esperma. Comigo, anota aí e põe-te a milhas, não vais fornicar. Comigo, anota aí e põe-te a milhas, não vais fazer amor. E agora anota sobretudo o que aí vem, meu amor.

Fornicar amor. É isso, e só isso, que vais fazer comigo quando me levares para a tua e para a nossa cama – e é sempre de dois a cama em que dois se fazem assim: como assim tem de ser. Fornicar amor. Até á última gota fornicar amor. Nem fornicar nem fazer amor – fornicar amor. Fornicar-te como à mais prostituta das prostitutas. E amar-te como à mais única das amadas. Fornicar amor. Chamar-te pêga e dizer-te amo-te, espancar-te o sexo e afagar-te o beijo. Ser o doce e a fera - a treva e o raio. Fornicar amor. E só assim, entre um grito e um afago, fornicar-te com amor: fazer-te amor."

Pedro Chagas Freitas 

44 comentários :

  1. Yap... um dos melhores textos que já li...

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  2. Este homem sabe passar para o papel tudo aquilo que pensamos e que nunca temos coragem, nem conseguimos, dizer!

    Clap, clap!!

    Beijinhos MS

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    1. Achei que merecia ser partilhado este texto que li. :)
      Beijinhos Morena! ;)

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  3. Que grande texto! Revejo-me totamente! "fornicar-te com amor: fazer-te amor" :)

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    1. Grande texto sem dúvida! Eu também não diria melhor! :)

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  4. Muito bom! Posso roubar só um bocadinho? :P

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    1. Pergunta ao Pedro Chagas Freitas. ;)
      Acho que merece ser partilhado sim! :)

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    2. Põe! Desde que menciones o autor, está-se bem. :)

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  5. Haja sabedoria para escrever assim :)

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    1. Sem dúvida, essencial para conseguir transpor esta ideia! :)

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  6. Está perfeito :) É isto mesmo...

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  7. O amor complementa uma boa foda??????????

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    1. Então não? As duas coisas complementam-se. Amor/foda, paixão/desejo em conjunto são o ideal! ;)

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  8. Respostas
    1. De nada! As coisas boas merecem ser partilhadas! :)
      kiss

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    2. Sabes quando lê-mos um textos e naquele momento pensas "Não o poderia ter lido em "melhor" altura?
      Este é um deles..

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    3. Ainda bem Karina! Fico feliz por isso! :)

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  9. Xiii belo texto o deste Senhor.
    Sabedoria...nada como amar e foder e foder e amar...
    (lamento a minha linguagem)
    :)
    Ah Bom dia Ms!

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    1. Não lamentes! É isso mesmo! Há que chamar as coisas pelos nomes! :)
      Bom dia Miss Mary! :)

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  10. Wwwoooowwwwww... Muito bom! =) E já agora... Fornicar ou fazer amor?! ihihihih ;)
    Bjokas

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  11. Há momentos e pessoas para tudo, um dia pode-se fornicar e no outro fazer amor, o importante é não perder a paixão nos sentidos.

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    1. O importante é gostar mesmo de uma pessoa que permita sentir e fazer tudo isto :)

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    2. Precisamente, não concordo na totalidade com este texto até porque não é de um momento para o outro que sabemos o que cada pessoa tem para dar... é ao longo da vida, e da vida em conjunto que percebemos que aquela pessoa é muito mais do que uma boa foda ou apenas um cutxi cutxi.
      Se ele/ ela é a tal será precisamente as duas coisas :) mas é preciso dar tempo ao tempo e descobrir o interior de cada pessoa. Eu por mim falo, a experiência é pouca mas apenas com o tempo fui descobrindo a pessoa que amo e até EU mesma :)
      Continuo a achar que o texto é um pouco rude e de palavras baratas, contudo o conteúdo está lá :) Obrigada pela partilha ;)

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    3. Não tenho dúvidas quanto a isso. De facto é necessário tempo para termos a certeza que aquela pessoa é a tal, não é assim logo à primeira...
      Não diria rude mas sim forte e também divertido. :)

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  12. Gosto bastante dos textos do Pedro, daí ter encomendado um dos livros dele autografado. Vamos ver se não me desilude.

    kiss, kiss

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    1. Tenho quase a certeza que não te vai desiludir.
      Ó Pedro, autografa o livro da Lírio fazz favor! ;)

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    2. Não precisas pedir, eu própria o fiz e ele disse que sim.
      :)

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    3. Eu sabia que ele não iria resistir ao teu encanto! ;)

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  13. Texto forte sem dúvida... Bom, muito bom..

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  14. Melhor do que foder-te, só fornicar-te.. com amor.

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  15. Grande texto, para mim amar é mesmo isto fornicar amor ;)

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  16. muito bem dito. concordo completamente. acho que vou levar :)


    xx

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  17. Este é daqueles textos que se lê e revejo-me completamente! Ler e reler, vezes sem conta, e mesmo assim sentir cada palavra com o mesmo sabor como se da primeira vez se tratasse! Clap clap clap BRAVO

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